sábado, 8 de março de 2008

Inicio do Sertão, sabores e sentimentos





Não preciso guardar minhas lembranças em gavetas, eu tenho um peito que não pára de pulsar, emocionadamente, o que registra a memória: Do beijo de papel que recebia do meu pai sentada no colo dele, enquanto cortava miudinho o fumo para seu cigarro. Com o papel de seda na boca, ao me beijar, fazia barulho eu como criança pequena achava uma graça o chiado do papel de seda.

Do cheiro raro de chuva, no solo do sertão. Do meu pé, deixando marca na areia molhada, do Riacho do Navio, como dizendo:
- Esse, é meu solo. E a terra úmida, será mãe. Logo logo, colherá as sementes que darão novos frutos e novo paladar.

Dos afetos vindo de escaldados preparados por minha mãe pra me aquecer, depois do banho de chuva, que lavava nossa alma de esperança. Feitos com leite e farinha de mandioca que era comprada ao Manoel Gogia, trazida da Serra Negra. Farinha igual não havia. Da fúria das águas do Riacho do Navio arrastando cercas e cuias (lembro que perder uma cuia era muita coisa). Ela é que conduzia o líquido de beber (quase ouro, em épocas de seca) para dentro das latas, em tardes de sol se pondo. Dos umbuzeiros, dos quais colhíamos farto lanche e aguardávamos uma umbuzada sem igual, feita pela minha mãe. Das faveleiras, das quais tirávamos aquelas favelas mais bonitas para fazer carrapetas. Exercitamos com elas muito nossa motricidade. Fazíamos desafios para competir qual carrapeta caía primeiro. Tínhamos latas cheias de favelas. Vai, não vai, uma estalava. Lá se ia uma boa carrapeteira, talvez. Das baraúnas de doces resinas, colhidas as escondidas, à tarde (“faz mal a garganta menina!” - dizia minha mãe). Dos trapiazeiros a nos seduzir com aquele fruto amarelo e de um cheiro! Das cafofas sob o chão e só colhidas para aliviar a sede vinda do sol escaldante. As noites de novenas em Airi, do tirado do terço de Tia Quininha e Adauta liderando o “A nós descei..” estimulando a sensibilidade, a fé. O pós novena, para brincar sem preconceito de classe, nem de raça, de “Sou rica, rica, rica…” com a meninada do vilarejo, à luz de uma lua, que nos guiava depois, pelas veredas, até o caminho de casa.

Do apito do ônibus, que não tinha todos os dias. Vindo de Recife à Floresta e que aguardávamos em DIDI (casa de café na beira da estrada). Guardei na lembrança aquela sensação de ver os que vinham da capital por meio dele, trazendo em seus bancos fofos (eu que conhecia bem tamborete, comparava) revistas e jornais que me faziam imaginar um mundo diferente, fascinante, que devia existir… Eu precisava conhecer, sem contar, no cheiro nada comum das maçãs.

Estávamos entre 1958 a 1960. Deixei o cheiro do mato, o som dos chocalhos das vacas, pra me encantar com os lustres e os vidros coloridos das janelas da cidade que se avistava de longe ao chegar a Floresta.

Que bela era a igreja matriz, sua torre iluminada, seus lustres imensos pendurados, o coro de onde ouvíamos lá do alto, cânticos religiosos. Encantada com os lustres, eu me lembrava do simples candeeiro a querosene da fazenda. A praça e a casa de Dona Dondom em dezembro, aberta a visitação pra que víssemos a lapinha, a gruta de Belém, mostrando o menino Jesus na manjedoura. Era o que havia de mais fascinante. Não havia TV ainda na nossa cidade.

Não agüentei, era muito criança. Voltei pra vida da fazenda, pro balanço da rede que só mãe sabe o ritmo de balançar. Pra voltar depois um pouquinho mais tarde, sabendo que os livros me levariam a um mundo que eu queria conhecer… não tinha mais como esperar.

Vida na cidade de interior… O cheiro do pão quentinho (que eu não reconhece outro igual), a bolacha salgadinha de Seu Zé de Dei, tapetes em dia de feira de caju e manga, banana, pinha, pitomba, goiaba, laranja, oiti e adereços de catolés e coentro. Cheiro inesquecível na feira, junto às cestas e carrinhos das madames.

As latas de mantimentos para reservar a farinha e os legumes de primeira, que confiávamos a Antônio de Velho. Junto a tudo isso, pelas ruas da cidade, via as figuras à margem da normalidade, fazendo-me observar o outro lado do ser.
Rita Baé no seu mundo alucinatório era intolerável a quem reforçasse suas fraquezas, fragilizando seu imaginar. Passiva, nunca. Se alguém lhe provocasse, coitado do feirante, ia perder suas pinhas, pois ela irracionalmente as associava a pedras e as atiravam, sem parar, nos insultadores. Eu via V8 (com traço sempre sisudo) de comunicação difícil, fazendo-me pensar como viver sem ser socializado! Era tamanha sua divergência higiênica, arrastando junto a si todos os objetos e seus dramas mudos. Complementava esse quadro, a dupla: Zé Abraão e Luzia Beba. Afinidade no beber demais.


O que fazia o homem por meio do álcool se entorpecer? Que dramas poderiam ter... Mas mesmo assim, Zé, não tolerava provocações. “Se eu me azedar, se eu me virar eu pego!” Como esquecer que encontrei na minha terra, o Petrônio, a recitar compulsivamente Augusto dos Anjos, nos fazendo pensar: o mesmo que ama, pode ser o que apedreja depois...

Aprendemos com essa apresentação normal deles, como custa caro ser sensível demais ou desequilibrar. A vida na cidade também trazia uma reflexão e estímulo ao exercício da religiosidade. Havia uma integração sinalizada por fitas. Filhas de coração de Jesus (fitas vermelhas), filhas de Maria (fitas azuis) e da Cruzada (a juventude de fitas amarelas largas). Descobri que havia algo lúdico e fui ser da Cruzada buscando me identificar e  integrar aquele grupo liderado por Mazé Leal.

O colégio, quanta alegria saudável! Estudei no Colégio Dep. Afonso Ferraz, onde adquiri plena consciência de civilidade e noção de inserimento no mundo. Mesmo em terras longínquas e ainda desprovida de desenvolvimento. As aulas, marcadas pela sineta tocada por Nida, que atentamente a balançava com precisão suíça. Quantas vezes nós estudantes dissemos baixinho no finzinho de uma aula: - Toca Nida, toca, vai; pra nos livrarmos de uma argüição oral. Atenta de igual modo era ela aos filtros pra que os alunos não fizessem molhadeira na retirada dos copos.

Não posso esquecer o dia em que o homem desceu a lua com a nave Columbia na missão APOLO 11. Estávamos no auditório do colégio, para ouvir por meio do rádio, nesse momento. Foi estudando nele que pude por meio das tintas expressar sentimentos, abstrair a realidade. Foi lá, que joguei tão importantes (pra quem precisa exercitar relacionamento, segurança, domínio e habilidade) raquetadas de ping pong. Na biblioteca, me concentrava para folhear diariamente e conhecer as enciclopédias que me fascinavam.

Nesse colégio, dancei inocentes passos na festa de São João e em homenagem às mães, recitei poesias e apresentei dancinhas. Dali partia marchando em pelotão, numa emoção patriótica, ao centro da cidade, em 7 de setembro. A manhã era repleta de dobrados, ouvidos de bocas de difusoras, estimulando logo cedo nosso sentimento. Por meio desse colégio, participei de concurso de redação promovido pela prefeitura. Tive a honra de receber do prefeito (na época, Luiz Novaes) o prêmio, em plena homenagem ao sete de setembro, no palanque frente à prefeitura.

Parece simples demais, grandioso, no entanto, para quem é adolescente, e precisa somar acertos e aplausos. Sou um somatório, portanto dessas mestras todas.

O coreto na praça, palco de muitos comícios em épocas de eleição, representação da importância da exposição de idéias, de aprender ouvir e analisar a aceitação de um povo cada vez que se escutava intercalado aos discursos entusiasmados dos políticos, um expressivo: ”MUITO BEM” e um aplaudir dos conterrâneos. Nele ouvíamos: Audomar Ferraz, Fiúza, Paulo Guerra, Aderbal Jurema, Milvernes Lins... Era uma maravilha ouvir Audomar Ferraz buscando afinidade com os florestanos iniciar o discurso invariavelmente dizendo: ”POVO DA MINHA TERRA”.

A praça e seus bancos, uma enorme sala de estar. Quantas palavras de amor foram ditas ali pelos casais!





A sorveteria de Seu Dedé. Os assustados nas férias, nas casas de quem entendiam melhor os jovens, bastava isso e uma radiola. Motivavam o encontro da geração que estudava fora da cidade. Registro de olhares com o brilho da adolescência. As músicas são inesquecíveis: O Milionário dos Incríveis, A volta dos Vips, Última canção do Paulo Sérgio, Coruja do Deno e Dino, O bom rapaz de Wanderley Cardoso, Nossa Canção de Roberto Carlos, Festa de arromba de Erasmo, Ternura de Wanderléia, Querida de Jerry Adriani, Não te esquecerei de Renato e seus Blue Caps, Coração de papel de Sérgio Reis e tantas outras.

O circo… como esquecer o palhaço Melão: “Aiii Jisus”, e todos os outros circos. A arquibancada, a companhia da época (amigo até hoje). O parque de diversão, ouvir “Zíngara” e “Estela” no sistema de som. Girar na roda gigante era quase chegar ao céu…

O Cine Recreio, cinema de Evan, trazendo: A noviça Rebelde, O diamante cor de rosa, Dr. Jivago… As matinês, os chicletes de bola comprados na entrada (que cheiro e gosto bom era o Adams…). Seu Amaro sempre ali cordialmente.

O Clube Grêmio 3 de julho, soltando no serviço de auto-falante músicas como: Sentimental demais, Os verdes campos da minha terra, Lêda, Última canção, A volta, Meu Bem, Coruja, O milionário, O bom rapaz, Nossa Canção, Querida, Não te esquecerei, Coração de Papel e tantos outros.

Suas festas com o sanfoneiro Agostinho. O fim de festa com Benicinho a cantar As pastorinhas. Era um exercício em unir emoção e incluir-se socialmente, além de reafirmar minhas afinidades em ritmo, ao identificar o meu par preferido…

O som dos Anônimos, o guitarrista Zezinho Cahú, o vocalista Acioli! No seu cantar dava o clima a cada peito, a emoção necessária pra sentirmos felizes no ritmo dos passos e no aconchego do cavalheiro.

Em meados dos anos 60 explode a Jovem Guarda-1965 a 68. Wanderléa, Roberto Carlos, Erasmo Carlos era o máximo. Era o reflexo brasileiro do rock internacional, com músicas românticas e descontraídas que faziam sucesso entre os jovens. Elvis Presley e os Beatles completavam a felicidade. Como esquecer: Help (Beatles) ou Kiss me Kiss (Elvis). Era quase sentir-se íntima do cantor ter um pôster de Roberto Carlos de corpo inteiro! Ele criou moda com seus anéis, medalhões e fivelas calhambeque. Além do programa e dos discos, fez filmes inspirados no modelo lançado pelos Beatles nos anos 60. O primeiro longa, "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", foi lançado em 1967, seguido por "Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa". Nos anos 70, muda de estilo e torna-se um cantor e compositor basicamente romântico. Mais tarde, aparece “Detalhes”. Música de tão forte expressão no meu coração.

A década de 70 foi marcada musicalmente no Brasil.
Foi ano de COPA. O som de Pra Frente Brasil, de Miguel Gustavo, música consagradora da conquista do tricampeonato mundial de futebol no México pelo Brasil é uma das músicas inesquecíveis dessa época.

Pra Frente Brasil
(Música da Copa de 70)
Noventa milhões em ação, Pra frente Brasil, Do meu coração... Todos juntos vamos, Pra frente Brasil,Salve a Seleção!
De repente É aquela corrente pra frente, Parece que todo o Brasil deu a mão... Todos ligados na mesma emoção... Tudo é um só coração!Todos juntos vamos, Pra frente Brasil!Brasil!Salve a Seleção!!!
A seleção canarinho conquistou seu terceiro título e a taça Jules Rimet. A Copa de 70 consagra Pelé e 90 milhões de brasileiros acompanharam pela primeira vez uma Copa ao vivo pela televisão do estádio Jalisco, em Guadalajara. Nós em pleno sertão, vibrávamos pelo rádio. Esses nomes fizeram nossa alegria em 1970 eu sabia de cor: Felix, Ado, Leão. Carlos Alberto, Zé Maria Brito, Wilson Piazza, Everaldo, Baldochi, Marco Antonio, Joel Camargo, Clodoaldo, Gerson, Fontana, Jairzinho, Tostão, Pelé, Edu, Dario, Paulo César, Roberto, Rivelino e o TÉCNICO: Zagalo.

Nosso Brasil vivia ainda sob comando dos militares. Vivíamos a era do “AME-O ou DEIXE-O” quando surgiu a música que estimulava que amassemos o Brasil.
Eu Te Amo Meu Brasil
Autor: Dom e Ravel

As praias do Brasil ensolaradas
O chão onde o país se elevou
A mão de Deus abençoou
Mulher que nasce aqui
Tem muito mais valor

O céu do meu Brasil tem mais estrelas
O sol do meu país mais esplendor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras
Vou plantar amor

Eu te amo meu Brasil, eu te amo.
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul, anil.
Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil

As tardes do Brasil são mais douradas
Mulatas brotam cheias de calor
A mão de Deus abençoou
Eu vou ficar aqui
Porque existe amor
No carnaval os povos querem vê-las
No colossal desfile multicor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras
Vou plantar amor

Adoro meu Brasil de madrugada
Na hora em que estou com meu amor
A mão de Deus abençoou
A minha amada vai comigo aonde eu for

As noites do Brasil têm mais beleza.
A hora chora de tristeza e dor
Porque a natureza sopra e ela vai-se embora
Enquanto eu planto o amor.

Chegando a Recife em 70 as músicas da época que eu mais escutava eram: as do LP Jesus Cristo de Roberto Carlos, Primavera (Tim Maia), Hey Jude (Beatles), Cândida (The Fevers), Have you ever seen the rain... Talvez por desejo inconsciente, cantava.

“I want to know, have you ever seen the rain
(Eu quero saber, se você já viu a chuva)
I want to know, have you ever seen the rain
(Eu quero saber, se você já viu a chuva)
Comin' down on a sunny day”
(Caindo num dia ensolarado)

2 comentários:

Anônimo disse...

Nossa! Quanta coisa linda de ler, reler, ler e reler...
Não vivi em todas as épocas e fases descritas, mas você nos transporta para Floresta naquele mundinho, que só quem viveu lá sabe, de maneira "real"! Pude sentir "cheiros" e "gostos", pude ouvir sons e "ver" pessoas...isso,amiga, digo a você: só consegue, quem de fato, escreve com alma e sentimento.
Como naquele concurso em sua adolescência, hoje você merece também DEZ!
Parabéns!
Beijo grande!
Madalena

Anônimo disse...

Puxa Lurdinha, só li o "Início..." e já estou com vontade de ler todo o livro. Eu diferentemente da Madalena, vivi as épocas descritas. Já há uns anos antes da sua chegada à cidade, eu corria e brincava pelas ruas sombreadas pelos tamarindos, hoje centenários.
Porém, em 1960, eu fui estudar no Recife e desde então, não mais convivi com o cotidiano da nossa querida Floresta. Só no período das férias,voltava àquele torrão querido e curtia os passeios, banhos, festas de São João, do Bom Jesus, paqueras, assustados, bailes etc, etc. E assim tem sido até hoje, adaptando-se o surgimento das modernidades: carros, telefone, TV, celular, internet etc, etc.
É verdade Lourdinha, Floresta tem grandes escritores, sejam poetas ou historiadores, mas o que eu gostaria mesmo de ler, agora, seriam crônicas que nos lembrassem os fatos cotidianos do nosso tempo ou estórias da nossa cultura, tão rica, com personagens inesquecíveis, que são tantas... Além das que voce já citou: Rita Baé, V8, Zé Abraão,e Luzia Beba, temos Militão, Quinca Firmo, Pitu, Maria Gorda, Lucas padeiro, Genaro pescador, a turma que se reunia na Farmácia dos Pobres pra contar estórias, as enchentes, o Poço da Pedra, os açudes etc, etc. Pois é, por tudo isso é que já estou ansioso pra ler o livro todo! (Ou é apenas um Blog?) Caso haja o livro, onde encontrá-lo? Meus cumprimentos Lurdinha e um grande abraço Jailson

Quem sou eu

Recife, Pernambuco, Brazil